quinta-feira, 7 de julho de 2016

Um conselho antigo...

André Souto Bahia
07 de julho de 2016

Recentemente, em um grupo que faço parte no Whatsapp, um pastor amigo meu compartilhou o conselho de John Wesley a Joohn Trembbath, dado em 17 de agosto de 1760, e que, embora antigo, é absolutamente atual.

Nos onze anos que pastoreei no Planalto Central (Brasil), e nesses quatro anos e meio no Haiti e em missões mundiais, também tenho constatado a atualidade do conselho de Wesley, especialmente aos colegas de ministério e não apenas aos pastores locais.

Assim, querendo permanecer cooperando e certo da necessidade de conhecimento aprofundado quanto à Integralidade da Missão enquanto paradigma bíblico-teológico substituto do gnosticismo evangélico e do neoliberalismo teológico, compartilho (logo após o texto de Wesley) algumas literaturas pelas quais o Senhor da Missão tem me aperfeiçoado para permanecer centrado em Cristo, fundamentado nas Escrituras, empoderado pelo Espírito, sendo agradável a Ele e aceitos pelos homens (Romanos 14.16).


À: John Trembath

O que tem prejudicado a sua vida no passado e, lamento dizer, até hoje, é a sua negligência quanto à leitura. Negligência tal que, por sua vez, chega a prejudicar até o próprio desejo de ler.
Dificilmente me recordo de um pregador que leia tão pouco. Eis a razão porque seu talento em pregar não aumenta. Você continua pregando como pregava há sete anos; com emoção, porém sem profundidade.
Falta variedade e conteúdo.
A leitura poderá preencher estas lacunas com meditação e oração diária. Você prejudica a si mesmo em omitir tal prática.
Desprezo à leitura impede alguém de ser um pregador maduro. Até para ser um cristão íntegro é mister a leitura adequada. Queira Deus que começasse logo!
Separe uma parte do dia para este exercício. Assim adquirirá o sabor por aquilo que faltava; o que parece monótono no início se tornará com o tempo um prazer.
Com ou sem disposição leia e ore diariamente. É para a sua própria vida; não existe outro caminho.
Faltando isso será para sempre um pregador superficial.
John Wesley












terça-feira, 7 de junho de 2016

ME DÁ UM REAL ?

Por André Souto Bahia
Missionário no Haiti

“E quem é o meu próximo?” 
Lucas 10.29b 



Você já teve ter ouvido esse pedido várias vezes, não é mesmo? Todos os dias nos semáforos e em vários pontos das Cidades, e por vezes às margens das Rodovias, meninos e meninas, menores e maiores abandonados estendem suas mãos pedindo ajuda. Nesse tempo aqui no Haiti também enfrentamos essa “rotina”. Ser estrangeiro é sinônimo de quem tem dinheiro!

Nosso coração, cheio do amor de Deus, é impulsionado a “fazer algo” para ajudar esses que sobrevivem à margem não apenas da sociedade, mas, principalmente, do Reino de Deus. Vem à nossa memória a parábola do Bom Samaritano, e dizemos a nós mesmos: “Jesus me ensinou a ser e agir como um bom samaritano”. Se esse é o seu caso, parabéns! Isso é compaixão!

Durante uma análise profunda do texto de Lucas 10:25-37, percebi que ele nos ensina que a Compaixão deve nos impulsionar a agir, mas, é a sabedoria quem deve coordenar nossas ações! Quase sempre confundimos ajuda com fazer o que o outro me pedi. Mas, ajudar, para Jesus, não é isso. Antes é fazer aquilo que o outro precisa para sair daquela situação. E às vezes, isso significa não fazer o que ele me pede.

Se não, faça uma conta comigo: se a cada hora debaixo do semáforo, aquele menino recebe R$1,00 de 10 cristãos compadecidos, e lá permanece das 8h da manhã até as 6h da tarde, quanto ele ganhará por dia? E se ele fizer isso durante os 30 dias do mês? Agora, se um bom samaritano vier àquele pequeno e lhe oferecer sair da rua, uma casa, estudos e até participar do programa “Jovem Aprendiz”... Qual resposta você acha que ele receberá daquele menor? Trocar os 3mil reais mensais recebidos na rua por horários, rotina, dever de casa, trabalho e uma bolsa de R$980,00 mensais?

Isso me fez refletir sobre: o que é ser, de fato, um bom samaritano? 

No Haiti, a própria população e lideranças afirmam precisarem de "bons samaritanos" para tirá-los "da beira do caminho" que se encontram há décadas (pra não dizer desde a Independência, em 1804).

Sabemos que as parábolas são um meio de ensinar uma verdade, e o contexto imediato dela faz toda a diferença. Há um Doutor da Lei querendo justificar sua religiosidade, instigando o Mestre a lhe dar uma receita pronta, pela qual ele (Dr) possa "ter a vida eterna". Foi a partir desse questionamento ("o que devo fazer para ter a vida eterna?") que o diálogo com Jesus começou. A parábola só vai entrar nesse diálogo após a segunda pergunta desse tal doutor: "e quem é o MEU próximo?" - note que ele, não satisfeito com a primeira e óbvia resposta de Jesus à sua tentativa de justificação própria, permanece na busca por justificar sua religiosidade e, assim, ter SEU ego massageado, com algo que ELE, fazendo, alcançaria a vida eterna. Jesus muda o ordem dos fatores, pois, ela altera o produto. Para o Mestre a questão é: "quem foi O PRÓXIMO do homem caído à beira do caminho" (v. 36). E complementa, após a constatação do doutor de que esse é o sentido da parábola: SER como o samaritano - bom, dizendo: "então [agora que você entendeu!] VÁ e FAÇA como ele". Rick Warren vai dizer que isso é trazer de volta o sentido para o que Deus nos criou: SERES humanos, e não FAZERES humanos!

Mas, o que fez do samaritano alguém, considerado por Jesus, BOM? Certamente não foi a síndrome do "bom samaritanismo" - algo propagado como se fosse bíblico, mas, na verdade, é o dogma religioso, de origem católico romano, da CARIDADE (e não me refiro ao sinônimo da palavra AMOR trazido em versões bíblicas mais antigas, mas, à prática de "boas ações" comumente chamada dessa forma) - que é uma versão abreviada das INDULGÊNCIAS. E, queridos, como nossa cultura é sincretista. Situações como essa, para a qual a maioria de nós nunca foi ensinado a questionar, analisar bíblica, histórica e teologicamente, e, não tenho dúvidas, missionária, são parte cotidiana da nossa experiência religiosa brasileira. Uma pergunta que tenho me feito (e falo enquanto apaixonado pela pesquisa, especialmente, bíblica): quantas vezes Jesus ensinou sobre FAZER CARIDADE?

O que fez do samaritano alguém, considerado pelo Mestre, bom, é diferente da visão sincretista inconsciente implícita na praxes religiosa: (v.33) aproximou-se, viu, encheu-se de compaixão; (v.34): chegou perto, enfaixou as feridas, aplicou azeite e vinho, o pôs na montaria, o levou à hospedaria, e, então, cuidou dele. Note que a tradição distorce os fatos para justificar a "síndrome do bom samaritanismo" impregnada pela doutrina da caridade, disfarçada de ajuda ao outro. É sutil, mas, faz toda a diferença! Sabemos que aquela rota era conhecida por sua periculosidade uma vez que passava por várias áreas desérticas e rochosas, que proporcionavam esconderijos naturais para os ladrões. O samaritano, através da sequência de suas ações, nos ensina uma verdade pela qual Jesus o considera bom:

A COMPAIXÃO NOS IMPULSIONA A AGIR,
MAS, É A SABEDORIA QUEM DEVE COORDENAR AS NOSSAS AÇÕES!

Note que ele (samaritano) antes de agir em favor do outro, se aproxima (análise do perímetro - poderia ser uma emboscada?), olha para o caído (análise e constatação do quadro real), para então, cheio de compaixão, descer da sua montaria. Em seguida, ele não se derrete, não chora aos prantos, não perde o foco da sua viagem e da necessidade REAL do homem caído, nem tão pouco do contexto onde está (uma rota famosa pelas emboscadas - ele poderia ser o próximo dos ladrões!): enfaixar e untar com vinho e óleo é ação emergencial, rápida, que estabiliza a situação, permitindo a remoção imediata, para, só então, em outro ambiente, seguro e estável, cuidar dele! Essas são ações cheias de compaixão e sabedoria. Não é caridade!

Não tenho dúvidas que essa parábola é uma metáfora para nos ensinar que SER vem antes de fazer, e isso implica em ser mais parecido com Jesus, vendo, sentindo e agindo em favor do outro como Ele fez e ensinou. Ela nos ensina, sim, a ajudar, mas, da maneira de Jesus, e não segunda a tradição religiosa (pelo contrário, não é verdade? Ele (Jesus) está contrariando um Doutor da Lei!). Ajudar não é fazer o que o outro me pede, mas, AQUILO QUE É NECESSÁRIO PARA QUE ELE EXPERIMENTE TRANSFORMAÇÃO EM SUA REALIDADE CAÍDA. E isso o Samaritano nos ensina! Ele fez tudo que dependia dele para que essa transformação acontece, mas, não fez um milímetro do que dependia do homem e nem da hospedaria. Isso é significativo! Não há "bom mocismo" aqui. Há envolvimento real, profundo, objetivo, compassivo, amoroso, disciplinado, sábio com o OUTRO. E isso a parábola nos ensina!

A pergunta chave, logo, não é "quem é o MEU próximo?" essa é uma pergunta religiosa que expressa a busca pela justificação diante de Deus: "mas, Senhor, eu preguei em teu nome, até expulsei demônios em teu nome! Como não me conheces?" - já leu algo assim na Bíblia? Pois é! A pergunta para Jesus é outra: "quem foi o PRÓXIMO do que estava caído?" - Nós somos o Próximo, não quem precisa de ajuda. Nós! Concordo quando alguém diz: "os bons samaritanos são aqueles que se envolvem, se aproximam e se tornam responsáveis de forma prática, objetiva, generosa e sacrificial em ajuda ao outro". Verdade! Mas, note, também que, na prática, se sugere fazer outras coisas que necessariamente não são boas (ou seja, que promovem a transformação do caído), mas, que dão sobrevida ao caído, mantendo-o como tal, e dá, ao que “ajuda” o status de "bom". O sincretismo cultural-religioso , por vezes, nos leva a confundir ajuda ao próximo com ajuda que não ajuda ao outro, mas, me faz um bem danado, e serve como resposta à nossa busca por, diante do Mestre, justificar-nos e, no íntimo dizer à Ele: nós fomos bons!

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Desafios contemporâneos à evangelização e crescimento de igreja



Por André Souto Bahia
Missionário no Haiti

Texto produzido com base na leitura do livro Crescimento Integral da Igreja, do Pastor Paschoal Piragine Júnior.

Acredito que o primeiro grande desafio à evangelização e ao crescimento de Igreja é a compreensão da integralidade da Missão. Em seu livro Crescimento Integral da Igreja, o Pastor Paschoal Piragine Jr. reflete em todo o tempo, do título às palavras finais, uma ampla e profunda percepção que para a Igreja cumprir sua Missão de “realizar os propósitos de Deus na Terra” é imprescindível compreendê-la em todas as suas dimensões, sem preferências ou verticalização, mas que a Missão é Integral: “um ministério em que a compaixão, a transformação social e a proclamação estão inseparavelmente relacionadas”. O crescimento que a PIB de Curitiba vem experimentando desde a implantação dessa visão e metodologias é a comprovação da sua tese e uma referência à Igreja contemporânea.

A Contextualização como estratégia para se alcançar realidades transformadas é outro desafio à evangelização e crescimento de Igreja. Ao compartilhar no quarto capítulo sobre a importância da Contextualização para o surgimento da visão de Deus para o ministério, e retomando essa temática na última parte do livro quando trata da adoração como fim último para o crescimento integral, deixa evidente que não significa uma “conformação cultural”. Penso que a busca por um crescimento meramente numérico, e não integral, induz a Igreja ao extremismo cultural: ora alienada e isolada da realidade que a cerca e assim irrelevante, ora imersa na cultura a ponto de se perder em seus valores e princípios fundamentais tornando-se infiel. Tal equilíbrio e prática exige a adoção e defesa do princípio da Sola Scriptura como o filtro do resgate à cultura.

Um terceiro desafio é a integridade da liderança. Embora não seja um tema diretamente abordado pelo autor, é evidente que para um crescimento integral da Igreja, a vida daqueles que a lideram é onde as transformações são primeiramente experimentadas tornando-se exemplos e referências para o povo de Deus. Em todo o processo, lento e progressivo, que a PIB vivenciou na implantação da visão de crescimento integral, cada etapa exigiu que seus líderes apreendessem esse novo estilo de vida como marca para a comunidade que via, aprendia e imitava, evidenciando que não há um programa de marketing de expansão, mas, um estilo de vida no Espírito, modelo para os irmãos e que atrai outros para o Caminho.

Algumas sugestões de conteúdos essenciais para a capacitação da igreja para a evangelização e crescimento.


Como fruto do primeiro desafio, faz-se necessária a ampliação e o aprofundamento do entendimento da Igreja quanto à natureza e a integralidade da sua Missão. A dicotomia e a verticalização ainda tem ocupado uma maior parcela da comunidade evangélica na busca pelo crescimento como evidência de êxito missionário. Textos reflexivos-práticos como esse do pastor Pascoal Piragine Jr. cooperam significativamente na formação e amadurecimento da visão e ações missionais do Povo de Deus.

O resgate e o ensino ostensivo da doutrina do Sacerdócio Universal do Crente oportunizando um nível tal de engajamento capaz de tornar cada membro um discípulo, cada discípulo um ministro, uma vez que o crescimento integral é resultado da sinergia dos ministérios karismáticos da comunidade dos salvos.

A prática do discipulado e da mentoria (formal e não formal) como investimento em pessoas, transferência de vida e não apenas de conhecimento bíblico-teológico, gerando cuidado e edificação mútua, mobilizando para ministérios centrados nos dons do Espírito.

O desenvolvimento da espiritualidade da Igreja enquanto comunidade em movimento sob o poder do Espírito, marcada pela oração como estilo de vida de todos, e vivenciada através de múltiplas estratégias quer coletivas, quer personalizadas. A descoberta e utilização dos dons espirituais na implantação e desenvolvimento de ministérios que cooperam entre si para o cumprimento contextualizado da Missão, gerando um crescimento dinâmico e integral em todas as suas direções e dimensões.

PIRAGINE JR, PASCHOAL. Crescimento Integral da Igreja. São Paulo: Vida, 2006.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Igreja Reino de Deus - porque ser igreja é ser agência do Reino de Deus!

"Porque o Reino de Deus está entre vocês".

Lucas 17.21


Por André Souto Bahia - Pastor e Missionário no Haiti
Esboço da Mensagem compartilhada com a Congregação Evangélica Militar Brasileira no Haiti, no domingo 18 de janeiro de 2015.



Pensarmos sobre esse tema implica buscar verdades bíblicas sobre esses dois aspectos da nossa reflexão: Igreja e Reino de Deus.

Verdades bíblicas sobre Igreja:

1) Igreja são pessoas e não prédio.
"Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome ali eu também estarei".
"Porque, embora sejamos muitos membros, somos um só corpo em Cristo".
"Cumprimentem Áquila e Priscila, e à Igreja que se reúne em sua casa".
+ Hebreus 10.25

- A Igreja é um organismo vivo, em constante movimento, formado por pessoas transformadas pelo Evangelho cujas vidas são instrumentos d'Ele no cumprimento da Sua Missão.

2) Igreja não é uma prestadora de serviço religioso.
"Assim como o Pai me enviou, eu envio vocês".
+ João 15.16
+ 1a Pedro 2.9
+ 2a Corintios 5.20 "Somos embaixadores..."

- Adoração é em espírito e em verdade; João 4.23-24.
- Culto é entrega de vida em sacrifício vivo, santo e agradável; Romanos 12.1-2
- Jejum é dedicar-se à prática da justiça (Isaías 58.3-12).
- Louvor é fruto dos lábios que confessam a Jesus. Hebreus 13.15
- Piedade é intimidade com Deus (Mateus 6.6) evidenciada em santidade - novidade de vida.
- Amor ao próximo é fazer-se próximo do caído, impulsionado pela compaixão, guiado pelo Espírito que é todo sabedoria. (Lucas 10.25-37).
- Ser igreja é ser sal que só serve se salgar; é ser luz, que só serve se iluminar, é ser amor que só existe se for de fato e de verdade.

Essas duas verdades já são suficientes para nos impelir a refletir sobre nossa realidade como Igreja:

- investir em pessoas deve ser prioridade; o templo, o prédio, as estruturas institucionais, e tudo mais que não levaremos para a eternidade tem que vir depois! E isso, tanto a nível institucional como pessoal e familiar.

- parecer mais com Jesus precisa ser o foco, o principal, a busca; a tradição, o histórico, o currículum, a experiência pessoal, e tudo mais que é humano, carnal e temporário devem ser cravados na Cruz de Cristo.

Mas, refletir sobre Ser Igreja Reino de Deus, é também pensar e pontuar sobre o Reino.

Algumas verdades teológicas sobre o Reino de Deus:

1) O RD não é desse mundo. "Disse Jesus: o meu Reino não é desse mundo!" - João 18.36
2) O RD se apresenta na dialética: agora e ainda não.
- Mateus 10.5-8; 12.28
- Mateus 25.31-33
3) O RD não é comida nem bebida, mas, paz, justiça, alegria no Espírito e edificação mútua. Rm 14.17-19
4) O RD é a mensagem central do ministério de João Batista, de Jesus, e dos Apóstolos. Mateus 3.2; 4.17; 10.7.
5) O RD é inclusivo, porém, exigente.
- Mateus 11.25-30; 21.43. Lucas 9.62

Assim, podemos pensar em algumas características de uma Igreja Reino de Deus:

1) Igreja REINO DE DEUS é transitória, peregrina, em movimento, porém, com rota e destino definidos!
- "sou forasteiro aqui, em terra estranha estou, do Reino lá dos céus, Embaixador eu dou".

- em movimento, ou seja, em Missão, não há nem tempo, nem espaço para outras ações e pensamentos que não A MISSÃO e tudo que diz respeito a ela.

Sejamos igreja peregrina, sim, mas, focados exclusivamente na Missão!

2) Igreja REINO DE DEUS é atuante no Hoje, motivada pelo Ontem, certa do Amanhã.

- o campo é o mundo, e a boa semente são os filhos do Reino - disse Jesus! Este campo está branco, pronto para a ceifa, e ainda, quem não põe a mão no arado não está apto para esse Reino.

- os evangélicos dos tempos de Jesus foram repreendidos por ele porque não produziam os frutos do Reino, e por isso lhes disse que este Reino seria dado a um outro povo que frutificaria.

- as bandeiras da PAZ, da JUSTIÇA, da ALEGRIA, do DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO, são bandeiras do Reino, e a Igreja é quem deve fazê-las tremular onde estiver.

3) Igreja REINO DE DEUS é porta-voz e testemunha viva do Evangelho do Reino.

- a boca fala do que está cheio o coração.
- precisamos alinhar nosso discurso de transformação de vidas, com nossa vida transformada;
- precisamos alinhar nossas crenças no poder de Deus, nos dons do Espírito, na verdade das Escrituras, com uma vida marcada por atos do poder de Deus, pelo fruto do Espírito, pela obediência visível da Palavra.
- somos agência do Reino, e não uma prestadora de serviços religiosos. Disto o mundo está cheio - no duplo sentido.

4) Igreja REINO DE DEUS busca, se preocupa, investe e discipula pessoas.

- é mais que apenas anunciar; é se envolver!
- é mais que conquistar almas, é o Evangelho todo, para o Homem todo, para todo Homem.
- é além das 4 Leis Espirituais; é até que se torne espiritual.

- precisamos priorizar o Reino, sem esquecer que antes, é preciso arrepender-se, fazer meia volta-volver, buscar e andar segundo os propósitos daquele que me chamou das trevas para sua maravilhosa luz!
- precisamos fazer discípulos do Mestre porque SOMOS DISCÍPULOS DELE.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Como você a lê ?




"Esperamos que um Bom Samaritano venha nos ajudar..."

Essa frase é repetida cotidianamente nas comunidades com os quais temos trabalhado nos últimos meses. A expectativa de que Deus lhes envie alguém que tipifique o Bom Samaritano narrado na parábola contada por Jesus (Lucas 10:20-37), expressa bem os efeitos que uma Cultura de Miséria produz, mesmo na vida daqueles que professam sua fé em Cristo e Seu Evangelho. Afinal, eles são os "caídos à beira do caminho", e o nós o "Bom Samaritano".

O "Bom Samaritanismo" é geralmente compreendido como a prática da caridade - interpretação comumente aceita para essa passagem bíblica. É como a lemos! Porém, ao longo desses mesmos dias, imergindo em uma reflexão criteriosa da parábola, especialmente do seu contexto (texto fora do contexto serve de pretexto!), fui impactado por algumas verdades didáticas para o nosso ministério missionário entre comunidades de alta vulnerabilidade da Zona Metropolitana da Capital Haitiana, as quais compartilho com você.

Reino de Deus não é religiosidade!

A parábola do Bom Samaritano é uma resposta a um Doutor da Lei que buscava por Jesus à prova: "Quem é o meu próximo?" - perguntou-lhe o Doutor. O mesmo que a pouco perguntara o Mestre: "o que é preciso para herdar a vida eterna?". Esse é o pano de fundo, o contexto geral, da parábola: um homem conhecedor da Lei, da Palavra, mas que não a praticava; alguém que procurava algo para justificar sua religiosidade vazia de sentido e de propósito eternos; alguém que vai a Jesus, mas com intensão de garantir um lugar no céu - o não ir para o inferno após a morte. Jesus contraria suas intensões religiosas e metafísicas (pós-morte), apresentando-lhe um exemplo da sua práxis, a realidade prática do Seu Evangelho e da mensagem da Salvação. "Respondeu-lhe Jesus: VÁ e FAÇA o mesmo!".

Paulo descreve que o Reino de Deus "não é nem comida, nem bebida, mas, a paz, a justiça e a alegria no Espírito Santo" (Rom 14.17), e ainda "edificação mútua" (v. 19). Tiago, em sua epístola, ao tratar sobre a inoperância da religiosidade e a prática da fé, faz um trocadilho afirmando que "a religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo" (Tg 1:22-27). E ainda, "se vocês de fato obedecerem à lei do Reino encontrada na Escritura que diz: 'Ame o seu próximo como a si mesmo', estarão agindo corretamente". (Tg 2.8).

Sendo a mensagem central de Jesus, o Reino de Deus, a Parábola do Bom Samaritano me saltou aos olhos como uma mensagem Real, um ensino sobre o que é prioridade (Mateus 6.33) à vida humana: a valorização do outro em detrimento das minhas próprias vontades, a lei da liberdade que se aplica no amor ao próximo, no negar a si mesmo, no, se preciso for, dar a minha vida em favor do outro. E isso, não é caridade! É amor!

Compaixão não é Caridade!

Fez-me rir perceber que, intencionalmente, Jesus mudou o sujeito da questão: quem é o meu próximo foi substituído por quem foi o próximo daquele homem?! Note-se que, para Jesus, esse era o ponto central do diálogo: você age como aquele Samaritano? Assim, ser Samaritano é ser bom... para o outro, é servir ao próximo. E aqui, me lembrei que há dois conceitos sobre servir: um comum e outro bíblico. Comumente, servir não é algo bom. É pesaroso. É um fardo. Esse é o dia-a-dia da comunidade: cada um por si e Deus por todos! Biblicamente, servir é um mandamento, e todo cristão é comissionado para servir, o que nos aponta para o exemplo do Bom Samaritano, que serviu aquele homem caído à beira do caminho. Servir, para Cristo, é ajudar ao próximo. Assim, crescemos vendo e aprendendo que servir é um pesar, e quando nos convertemos, aprendemos que devemos ajudar. Daí, é muito fácil confundirmos os dois conceitos, tendo um como ideal e outro como real. Vou exemplificar para ficar mais fácil o que estou tentando compartilhar:

Como na maioria dos grandes centros urbanos no Brasil, aqui na Capital do Haiti também há meninos que vivem nos semáforos pedindo um real, um dólar, alguns gourdes, para matar a fome, a sede e terem o que vestir. Eles vem até a janela do carro, estendem a mão e dizem: - Hei, moço, me dá um dólar! Me ajuda que estou com fome! Agora, imagina se a cada hora, 10 cristãos "bons samaritanos" decidem ajudar o garoto, e lhe dão R$ 1,00. A cada hora ele recebe R$ 10,00. Em uma jornada de 10 horas (das 8h às 18h), aquele garoto receberá R$ 100,00, e em 30 dias, R$ 3.000,00. Porém, um belo dia, um Bom Samaritano decide parar seu carro, conversar com o garoto, ouvir os porquês de estar ali, e lhe oferecer uma nova vida: casa, roupa, comida, escola e TRABALHO, para que ele não precise mais pedir ajuda. Seja sincero, e responda: aquele garoto iria mesmo sair da rua, de onde tira 3 mil reais por mês, para ir à escola e ter um "primeiro emprego" ou ser um "jovem aprendiz", recebendo R$ 987,00 ? A conclusão é que aquele R$ 1,00 não ajudou o garoto. Pelo contrário, reforçou nele a cultura de pedinte e dependente do dinheiro alheio. Aquele foi um real de caridade, mas, não de amor!

Mateus registra que Jesus se utilizava de um tripé em favor das gentes aflitas e exaustas como ovelhas sem pastor. Ele via, sentia e agia em favor de pessoas! (Mt. 9:35-10:1). A compaixão é ponto central na parábola do Bom Samaritano, mas, as ações que ele empreendeu não foram coordenados por ela, mas, pela Sabedoria.

É a Sabedoria que precisa coordenar nossas ações no Reino!

É nítido que aquele Samaritano não agiu a ermo. A trilha onde ele estava era conhecida pelas emboscadas e ataques violentos, à semelhança do sofrido por aquele homem caído à beira do caminho. Os motivos de eles terem escolhido passar por ali não são o foco da mensagem, mas, é certo que a sequência das atitudes do Samaritano só comprovam que ele não agiu pela emoção, mas, sua bondade estava associada à sabedoria que o fez reconhecidamente bom, e não mais um na estatística daqueles saltimbancos. 1º) Aproximou-se; 2º) Enfaixou-lhes as feridas; 3º) Untou com olho e vinho; 4º) Colocou-o sobre sua montaria; 5º) O levou à hospedaria; 6º) Cuidou dele. Estes passos foram mais que suficientes para me mostrar que aquele Samaritano, cheio de compaixão, agiu com toda a sabedoria. Ele analisou o cenário para ver se não era uma emboscada. Ao constatar a gravidade do problema, tratou logo de remover, com cuidado e presteza (enfaixou e untou são primeiros socorros emergenciais), levando-o e indo para um lugar seguro e estável onde pudesse, enfim, cuidar daquele homem.

O foco do Reino não mudou, mas, ajudar por ajudar é religiosidade! Essa mesma reflexão tem me levado à compreender a profundidade do sermão profético de Jesus, onde a mensagem sobre "tive fome e me deste de comer", "tive sede e me deste de beber", "estava nu e me vestiste", "preso e foste me visitar", vindas de Jesus (e que serão proferidas naquele último e grande dia por Ele mesmo!), não poderia ser uma mensagem para a prática da caridade, como que nos permitindo justificar-nos (à semelhança do doutor da Lei, como retratado por Lucas: "tentando justificar-se..."):

- Senhor, quando te vi com fome, te dei um prato de comida - mesmo sabendo que no dia seguinte você sentiria fome novamente...
- Senhor, quando te vi com sede, te dei um água - embora no dia seguinte você sentiria sede novamente...
- Senhor, quando soube que estava preso te visitei - embora nos dias seguintes você continuaria sozinho, e quando saiu da prisão não teve quem o reinserisse na família e na sociedade...
- Senhor, quando você estava doente, eu te visitei - embora o seu tratamento tenha se complicado, ficado caro, e você não tenha tido meios para se reestabelecer e voltar à vida...
Os resultados das nossas ações podem indicar nossas verdadeiras intensões!
Quando o Reino de Deus chega, há promoção da justiça em todas as suas dimensões, da paz no homem e entre todos os homens, da alegria que emana do e no Espírito, e do desenvolvimento comunitário (na linguagem paulina: edificação mútua). E me parece que foi isso que aquele Samaritano promoveu na vida daquele que estava caído à beira do caminho, mas, reviveu! Penso que por isso mesmo, Jesus, o Bom Mestre, o usou como exemplo, afirmando também a nós hoje: VÁ E FAÇA O MESMO!

sexta-feira, 14 de março de 2014

UM ENCONTRO AO MEIO DIA!

Uma reflexão baseada em João 4:1-42


Pr. André Souto Bahia
Missionário no Haiti




O episódio se dá em Sicar, um povoado perto de Siquém, situada numa região montanhosa de Efraim, numa planície entre o monte Ebal, a norte, e o monte Gerizim, a sul. Mais precisamente ao lado do Poço de Jacó – hoje a moderna Bir Ya`Kub, com 42 metros de profundidade, localizado fora da vila.

Jesus escolheu passar pela Samaria para chegar à Galiléia após saber que os fariseus queriam, muito provavelmente, discutir sobre o fato de estar ele fazendo e batizando mais discípulos do que João Batista. A bem da verdade, o texto relata que “era necessário” que Jesus passasse por lá, contrariando a tradição judaica de evitar a terra dos Samaritanos utilizando o caminho do lado oriental do Jordão, pela Peréia e Decápolis. A rota escolhida era a mais curta e direta, muito embora, essa escolha pode ser entendida mais a partir do prisma da sua Missão (v. 34), que da geografia em si.

João relata que Jesus se cansou por causa da viagem e “sentou-se à beira do poço”. Isso aconteceu por volta do meio-dia e seus discípulos não estavam com ele. Foram comprar comida. Ele estava só, cansado, sob o sol escaldante do meio dia, em terras hostis onde não era bem vindo.

Nesse momento, uma mulher moradora daquela aldeia chega ao Poço para buscar água. Jesus inicia o diálogo, e ela, das seis ocasiões que fala com ele, cinco aparentam ressaltar a discriminação étnico-religiosa que havia entre judeus e samaritanos – o que para Jesus não era algo do qual valesse a pena preservar. Apenas na menor, mais rápida e tímida resposta da mulher: “Não tenho marido”, Ele considerou como expressão da verdade. Parece-me que até mesmo em seu testemunho na volta à vila (v. 28) existiu dúvida a respeito do que viu, ouviu e experimentou durante seu encontro com Jesus: “Será que ele não é o Cristo? – disse ela.

Contudo, o que impactou, o que mexeu e serviu como estímulo aos que a ouviram não foi sua dúvida, mas o fato de Jesus saber e ter dito à ela tudo o que fazia. O verso 39 diz: “muitos samaritanos creram nele por causa desse testemunho dado pela mulher”. O ápice do diálogo parece se concentrar no momento quando ela reconhece que Jesus disse tudo quanto ela fazia. Essa, porém, é uma frase que acaba sintetizando várias informações sobre o que de fato transformou não só a mulher, mas os que a conheciam antes disso, o seu passado e a sua fama.

O que significou essa expressão da mulher: “ele me disse tudo que tenho feito”? Se dissermos que é porque ele sabia do seu passado pregresso, ou ainda, que ele conhecia sua fama, lembremo-nos que os moradores de Sicar também os sabiam, e isso não mudou sua vida, muito pelo contrário.

O verso 15 parece ser um desabafo que expõe sua secura, sua sede por dias melhores diante da proposta de Jesus dos dois versos anteriores. Parece, também, ser uma espécie de resposta retórica – daquelas que é muito mais um pensamento em voz alta que qual não se espera uma resposta efetiva, capaz de dar solução. Mas, Jesus o fez! Ele a surpreendeu com a possibilidade à mão para mudar e realizar tal utopia.

--- Senhor, dá-me dessa água! Não quero ter mais sede e nem voltar aqui, nunca mais, para tirar água.

Diante desse desabafo, desse pensar alto, ele lhe diz: “Vá, chame o seu marido e volte!”. Jesus tocou na ferida. Mais, ele a expôs. Trouxe para fora removendo a cobertura superficial que a fazia doer silenciosamente, e então, a abre: “O fato é que você já teve cinco; e o homem com quem agora vive não é seu marido”. Aqui, o encontro poderia ter acabado. Ela poderia ter interrompido o diálogo naquele segundo, pois, como um judeu, desconhecido, chega aqui e vem dizer tudo quanto eu tenho feito? Mas, ela sabia que não foi isso que ele fez.

Essa ação de descobrir a ferida é precedida de palavras que ela, provavelmente, nunca havia ouvido, e de um modo de ser tratada que ela nunca havia experimentado. Os judeus estariam cerimonialmente impuros se usassem um utensílio utilizado para beber manejado por um samaritano. Jesus não tinha nem com o que tirar água do Poço, e o verso 28 diz que a mulher deixou ali o seu cântaro. Jesus a considerou mais importante que sua própria tradição ou qualquer diferença étnica-religiosa! A palavra de Jesus parece soar como um bálsamo que ela tanto esperava. A limpou, a purificou, a perdoou, a libertou das cadeias: não quero ter mais sede, não quero mais continuar fazendo isso, não quero mais essa vida pra mim!

O que nos permite esse entendimento do texto é a resposta seguinte da mulher (v.19). Aparentemente sem muito nexo – estávamos falando de mim, das minhas feridas, e agora, eu, embora lhe reconheça como profeta, quero lembra-lo das nossas diferenças culturais, ok? Não foi isso que aconteceu! Os samaritanos se consideravam descendentes fiéis de Israel. Eles aceitavam o Pentateuco como Escritura, e criam que Gerisim era o lugar escolhido para o Santo Templo. Criam e esperavam o Messias (v. 25). Ela queria ir ao Templo para se prostrar, se apresentar diante de Deus para adorá-lo como há muito não fazia (e não podia!).

Mais uma vez, Jesus lhe surpreende com uma palavra libertadora: “nem neste monte, nem em Jerusalém, mas em espírito e em verdade”. O que faltava agora era só resolver o problema sobre quem iria fazer tudo isso acontecer. Quem iria ser o meu Salvador? Quando o Messias viria para realizar tudo isso?

A impressão que dá é que a esperança lhe voltou: essas correntes não serão pra sempre. Parece que a luz brilhou no fim do túnel: um dia o meu Messias virá e tirará todas essas amarras. Mas, até aquele momento isso ainda não era uma verdade na sua vida. Pela sétima vez, Jesus lhe dirige a palavra: “Eu sou o Messias! Eu, que estou falando com você”. Agora não faltava mais nada!

Contudo, o evangelista pausa o diálogo (v.27) para introduzir a chegada dos discípulos com a comida. Aparentemente nada muito a ver com tudo o que se havia narrado anteriormente. Ledo engano! Tudo a ver! Os dois versos seguintes (28 e 29) volta à mulher. Ela já havia deixado seu cântaro, e voltara à aldeia diferente: não era mais uma adúltera carregadora de água ao meio-dia, mas alguém capaz de impactar outros com seu testemunho vivo da transformação que Jesus lhe fizera.

Ela deixou seu cântaro naquele poço, naquele encontro, naquela tarde!
Sabemos, e João não nos deixa esquecer que “muitos daquela cidade, samaritanos, creram em Jesus por causa do testemunho dela” (v. 39). Ainda, que foram até Jesus, o convidaram para permanecer com eles (foram mais 2 dias), e “por causa da sua palavra, muitos outros creram” (v. 41).

Uau! Que mensagem fantástica aos discípulos. Sim, eles também foram fortemente impactados por aquela viagem: 1º) Jesus decide leva-los pelo meio de um povo impuro (ao menos aos olhos da sua tradição e cultura; 2º) Eles o viram quebrando todos os protocolos quando conversava, e provavelmente, bebia água no cântaro de uma mulher e samaritana; 3º) Eles foram comprar comida. Jesus ficou descansando. Eles insistiram para Ele comer, mas, ouviram foi um sermão: “Tenho algo para comer que vocês não conhecem...” – continua até o verso 38. E por fim, ainda os fez permanecer por dois dias em Sicar, com eles – os samaritanos. O que era pra ser só uma passagem rápida, virou estadia e trabalho.

Quantas lições nós podemos aprender com tudo isso narrado em João 4:1-42, não é mesmo? Quero compartilhar quatro que Deus falou profundamente ao meu coração nesses dias no Campo Missionário do Haiti:

Essa é uma narrativa missiológica e missionária!

É missiológica por nos levar à reflexão sobre a Missio Dei: qual é o foco de Deus no mundo? O que Ele tem fez e tem feito na História e com quais objetivos? É missionária porque nos permite avaliar e pautar nosso fazer à partir do fazer do missionário Jesus de Nazaré. É muito mais que um texto para os de fora ouvindo, entrarem. Ele nos impulsiona sair para que os que estão fora saibam e sejam impactados com a oportunidade de também entrar!

Fazer o que é necessário pela e na Missão, até pode proporcionar momentos de solidão, cansaço, exposição ao calor escaldante em terras hostis, e ainda, me levar aonde não sou bem vindo, mas, percebo que isso me assemelha ao Mestre, e me dá certeza que estou comendo a mesma comida d’Ele: “fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a Sua Obra”.

Um encontro ao meio-dia pode servir para transformar a história de uma pessoa, antes sedenta, seca e oprimida por seu passado e presente, e sem perspectivas futuras, porém agora, fonte de água viva à jorrar para vida eterna. Um encontro! Pouco tempo para Jesus é suficiente para mudar uma história!

Não podemos negligenciar as ações de curto prazo, pequenas para alguns, pouco producentes para outros. Aquele encontro no Poço de Jacó nos fala que, embora a Missão seja maior, a amplitude da Missão seja maior, as implicações da Missão gerem, por vezes, exigências maiores, ela (a Missão) não se faz só de grandes, complexas e delongadas ações, projetos e planos, mas também, de encontros únicos ao meio-dia à beira de uma fonte de água fora da cidade.

Que intrigante: foram só dois dias; era só uma aldeia. Mas, o Mestre ficou. Ele passou lá. Se importou. Aproveitou bem as oportunidades (Ef. 5.16). Não temos outro relato de Jesus se encontrando outra vez com a Mulher Samaritana, nem permanecendo, ou mesmo, só passando em Sicar. Foram só dois dias, mas que, diz o texto no verso 41: “Por causa da sua palavra, muitos outros creram”. Uma viagem de 2 dias vale a pena se for para mudar uma história pelo poder do Evangelho!

Isso me fez perceber que os missionários voluntários nas Caravanas de Impacto de Curto Prazo, a exemplo dos pouco mais de seiscentos, a maior parte (60%) vindos somente uma vez, que deixaram suas Jerusaléns, e entenderam que lhes era necessário passar no Haiti dez, doze, quinze dias compartilhando a Sua Palavra com gente considerada por muitos impuros, mas amadas por Deus, que vale a pena, sim, o plantar e o colher de cada um. Perceber que isso é, também, cumprimento da Missão, e os faz instrumentos nas mãos do Dono da Fazenda para a transformação de histórias de vidas, em pleno escaldar do sol, em terra hostil, por vezes em lugares que não foram bem vindos! Esses testificam que comem à mesa com o Mestre!

Esse Encontro ao meio-dia nos permite apreender sobre a profundidade e atualidade das palavras de Pedro em resposta ao questionamento de Jesus: “E vocês também querem ir embora?” – Para onde iremos nós, se só Tu tens as palavras de vida eterna!

Jonas, tipificando Israel, abriu mão dessa verdade, e por isso seu ministério missionário lhe foi um fardo pesado. Duas palavras ditas por Jesus, não à Mulher, mas aos discípulos naquele contexto, me despertam e enchem de temor: “Abram os olhos e vejam os campos! Eles estão maduros para a colheita”, e, “um semeia e outro colhe. Eu os enviei para colherem o que vocês não cultivaram”.

Verdadeiramente, para onde irei eu se só o Evangelho é o poder de Deus para a transformação de todo aquele que crer? Que outro sentido a vida pode ter se não fazer sentido na vida de outros indicando-lhes que só Tu tens as palavras de vida eterna? Um planta, outro colher, mas Ele é o Senhor da Seara!

É possível plantar ou colher ao meio-dia? Em apenas uma hora? Em apenas dois dias? Aquela mulher, aquela aldeia nos fazem lembrar, todos os dias, que sim!

Se essa é a comida do Mestre, é dela que eu quero continuar me alimentando. Se esse é o estilo de Missão que o Mestre também usa, também quero pra mim.

E você? Disposto a realizar um encontro ao meio-dia? Seja um missionário voluntário. Entre em Campo com Cristo, pelas Nações, e experimente plantar e colher enquanto você cumpre a Missão.

domingo, 26 de janeiro de 2014

VISÃO E METODOLOGIA POR UM NOVO HAITI

Por André Souto Bahia
Missionário no Haiti

Gostaria de compartilhar alguns aprendizados que o Senhor tem nos permitido experimentar Por Um Novo Haiti. Minha intenção é dar aos irmãos um pano de fundo daquilo que temos visto e ouvido do Senhor sobre sua metodologia na transformação dessa Nação, e assim, contribuir para que você se engaje integralmente: pés, joelhos, mãos e coração, decidindo não ficar fora do que Ele tem feito no Haiti.

Ao longo dos meus dez anos de pastorado aprendi que uma boa Ação Social é aquela que não simplesmente dá o peixe, mas, ensina a pescar. Aqui no Haiti, temos aprendido do Senhor que precisamos ir mais além:

Ensinar a confeccionar a vara, o anzol e cultivar o húmus. Isso é investir em Desenvolvimento Integral!
Em nosso Ministério esse princípio é significativo para nortear a metodologia de trabalho. O foco das nossas ações está na FORMAÇÃO DE FORMADORES, ou seja, líderes que possam ser discipulados pela Igreja Brasileira, mas que, sobretudo, aprendam a discipular outros após o retorno dos Brasileiros. Que eles aprendam a fazer e aperfeiçoar tudo o que aprenderem na Palavra.

“Uma Missiologia Bíblica está embasada no princípio da geração de autonomia e sustentabilidade, onde a expansão é uma consequência natural”.
Aqui no Haiti, Deus tem nos dado o privilégio de experimentar da sua metodologia de empoderamento do outro para que se tornem Suas testemunhas tanto do outro lado da mesa até o outro lado do mundo (Atos 1.8)!

A História da Igreja Protestante no Haiti começa quase 50 anos antes da Igreja Brasileira. A Igreja Haitiana está presente em todos os rincões do território nacional, seja no alto das montanhas ou no litoral, nos grandes centros urbanos ou nos vilarejos do interior. O grande desafio missionário aqui não é tornar a Igreja presente. Ela já o é! O maior desafio é essa mesma Igreja, grande como um rio de 10 km de largura, ser relevante para sua comunidade como instrumento/agente de desenvolvimento integral.

“A compaixão deve nos impulsionar às ações, mas ...
... é a sabedoria quem precisa coordená-las!”.

Esse é outro aprendizado significativo sobre o jeito do Mestre realizar a Missão Por Um Novo Haiti. Todos os dias chegam grupos de missionários estrangeiros para “apoiar” a Igreja Haitiana. A grande maioria, no entanto, está focada em realizar, fazer, dar para eles, mal sabendo (ou ignorando) que estão é contribuindo para a dependência externa, baixa da estima e fortalecimento das estruturas de miséria e opressão que assolam a Nação. A motivação é justa e honesta, mas a operacionalização desse nobre sentimento não está linkada à orientação do Mestre: “Simples como pomba, mas, PRUDENTES como a serpente”.

Temos constatado diariamente que o mesmo Espírito Santo que habita em nós, habita em cada haitiano convertido; que a Palavra que nos orienta e conduz – nossa regra de fé e conduta é a mesma da comunidade de fé haitiana. Logo, eles não são coitadinhos, mas Povo de Deus. Não são miseráveis, mas Remidos e Imersos no Espírito que não nos torna covardes, mas, ousados no Seu poder. Eles precisam ser lembrados dessas verdades, ensinados nelas e treinados a formar essa nova mentalidade bibliocêntrica em sua própria cultura. Isso é DISCIPULAR DISCIPULADORES!

Por Um Novo Haiti é muito mais que uma marca, um nome, um projeto. É o alvo! A síntese que nos permite filtrar e moldar tudo que pensamos e fazemos com e pela Nação. Não sonhamos outra realidade que não UM NOVO HAITI, pois, para nós, os que cremos, o Evangelho continua sendo o poder de Deus para a transformação, para a salvação!