14 março 2014

UM ENCONTRO AO MEIO DIA!


Pr. André Souto Bahia
Missionário no Haiti

Uma reflexão baseada em João 4:1-42


O episódio se dá em Sicar, um povoado perto de Siquém, situada numa região montanhosa de Efraim, numa planície entre o monte Ebal, a norte, e o monte Gerizim, a sul. Mais precisamente ao lado do Poço de Jacó – hoje a moderna Bir Ya`Kub, com 42 metros de profundidade, localizado fora da vila.

Jesus escolheu passar pela Samaria para chegar à Galiléia após saber que os fariseus queriam, muito provavelmente, discutir sobre o fato de estar ele fazendo e batizando mais discípulos do que João Batista. A bem da verdade, o texto relata que “era necessário” que Jesus passasse por lá, contrariando a tradição judaica de evitar a terra dos Samaritanos utilizando o caminho do lado oriental do Jordão, pela Peréia e Decápolis. A rota escolhida era a mais curta e direta, muito embora, essa escolha pode ser entendida mais a partir do prisma da sua Missão (v. 34), que da geografia em si.

João relata que Jesus se cansou por causa da viagem e “sentou-se à beira do poço”. Isso aconteceu por volta do meio-dia e seus discípulos não estavam com ele. Foram comprar comida. Ele estava só, cansado, sob o sol escaldante do meio dia, em terras hostis onde não era bem vindo.

Nesse momento, uma mulher moradora daquela aldeia chega ao Poço para buscar água. Jesus inicia o diálogo, e ela, das seis ocasiões que fala com ele, cinco aparentam ressaltar a discriminação étnico-religiosa que havia entre judeus e samaritanos – o que para Jesus não era algo do qual valesse a pena preservar. Apenas na menor, mais rápida e tímida resposta da mulher: “Não tenho marido”, Ele considerou como expressão da verdade. Parece-me que até mesmo em seu testemunho na volta à vila (v. 28) existiu dúvida a respeito do que viu, ouviu e experimentou durante seu encontro com Jesus: “Será que ele não é o Cristo? – disse ela.

Contudo, o que impactou, o que mexeu e serviu como estímulo aos que a ouviram não foi sua dúvida, mas o fato de Jesus saber e ter dito à ela tudo o que fazia. O verso 39 diz: “muitos samaritanos creram nele por causa desse testemunho dado pela mulher”. O ápice do diálogo parece se concentrar no momento quando ela reconhece que Jesus disse tudo quanto ela fazia. Essa, porém, é uma frase que acaba sintetizando várias informações sobre o que de fato transformou não só a mulher, mas os que a conheciam antes disso, o seu passado e a sua fama.

O que significou essa expressão da mulher: “ele me disse tudo que tenho feito”? Se dissermos que é porque ele sabia do seu passado pregresso, ou ainda, que ele conhecia sua fama, lembremo-nos que os moradores de Sicar também os sabiam, e isso não mudou sua vida, muito pelo contrário.

O verso 15 parece ser um desabafo que expõe sua secura, sua sede por dias melhores diante da proposta de Jesus dos dois versos anteriores. Parece, também, ser uma espécie de resposta retórica – daquelas que é muito mais um pensamento em voz alta que qual não se espera uma resposta efetiva, capaz de dar solução. Mas, Jesus o fez! Ele a surpreendeu com a possibilidade à mão para mudar e realizar tal utopia.

--- Senhor, dá-me dessa água! Não quero ter mais sede e nem voltar aqui, nunca mais, para tirar água.

Diante desse desabafo, desse pensar alto, ele lhe diz: “Vá, chame o seu marido e volte!”. Jesus tocou na ferida. Mais, ele a expôs. Trouxe para fora removendo a cobertura superficial que a fazia doer silenciosamente, e então, a abre: “O fato é que você já teve cinco; e o homem com quem agora vive não é seu marido”. Aqui, o encontro poderia ter acabado. Ela poderia ter interrompido o diálogo naquele segundo, pois, como um judeu, desconhecido, chega aqui e vem dizer tudo quanto eu tenho feito? Mas, ela sabia que não foi isso que ele fez.

Essa ação de descobrir a ferida é precedida de palavras que ela, provavelmente, nunca havia ouvido, e de um modo de ser tratada que ela nunca havia experimentado. Os judeus estariam cerimonialmente impuros se usassem um utensílio utilizado para beber manejado por um samaritano. Jesus não tinha nem com o que tirar água do Poço, e o verso 28 diz que a mulher deixou ali o seu cântaro. Jesus a considerou mais importante que sua própria tradição ou qualquer diferença étnica-religiosa! A palavra de Jesus parece soar como um bálsamo que ela tanto esperava. A limpou, a purificou, a perdoou, a libertou das cadeias: não quero ter mais sede, não quero mais continuar fazendo isso, não quero mais essa vida pra mim!

O que nos permite esse entendimento do texto é a resposta seguinte da mulher (v.19). Aparentemente sem muito nexo – estávamos falando de mim, das minhas feridas, e agora, eu, embora lhe reconheça como profeta, quero lembra-lo das nossas diferenças culturais, ok? Não foi isso que aconteceu! Os samaritanos se consideravam descendentes fiéis de Israel. Eles aceitavam o Pentateuco como Escritura, e criam que Gerisim era o lugar escolhido para o Santo Templo. Criam e esperavam o Messias (v. 25). Ela queria ir ao Templo para se prostrar, se apresentar diante de Deus para adorá-lo como há muito não fazia (e não podia!).

Mais uma vez, Jesus lhe surpreende com uma palavra libertadora: “nem neste monte, nem em Jerusalém, mas em espírito e em verdade”. O que faltava agora era só resolver o problema sobre quem iria fazer tudo isso acontecer. Quem iria ser o meu Salvador? Quando o Messias viria para realizar tudo isso?

A impressão que dá é que a esperança lhe voltou: essas correntes não serão pra sempre. Parece que a luz brilhou no fim do túnel: um dia o meu Messias virá e tirará todas essas amarras. Mas, até aquele momento isso ainda não era uma verdade na sua vida. Pela sétima vez, Jesus lhe dirige a palavra: “Eu sou o Messias! Eu, que estou falando com você”. Agora não faltava mais nada!

Contudo, o evangelista pausa o diálogo (v.27) para introduzir a chegada dos discípulos com a comida. Aparentemente nada muito a ver com tudo o que se havia narrado anteriormente. Ledo engano! Tudo a ver! Os dois versos seguintes (28 e 29) volta à mulher. Ela já havia deixado seu cântaro, e voltara à aldeia diferente: não era mais uma adúltera carregadora de água ao meio-dia, mas alguém capaz de impactar outros com seu testemunho vivo da transformação que Jesus lhe fizera.

Ela deixou seu cântaro naquele poço, naquele encontro, naquela tarde!
Sabemos, e João não nos deixa esquecer que “muitos daquela cidade, samaritanos, creram em Jesus por causa do testemunho dela” (v. 39). Ainda, que foram até Jesus, o convidaram para permanecer com eles (foram mais 2 dias), e “por causa da sua palavra, muitos outros creram” (v. 41).

Uau! Que mensagem fantástica aos discípulos. Sim, eles também foram fortemente impactados por aquela viagem: 1º) Jesus decide leva-los pelo meio de um povo impuro (ao menos aos olhos da sua tradição e cultura; 2º) Eles o viram quebrando todos os protocolos quando conversava, e provavelmente, bebia água no cântaro de uma mulher e samaritana; 3º) Eles foram comprar comida. Jesus ficou descansando. Eles insistiram para Ele comer, mas, ouviram foi um sermão: “Tenho algo para comer que vocês não conhecem...” – continua até o verso 38. E por fim, ainda os fez permanecer por dois dias em Sicar, com eles – os samaritanos. O que era pra ser só uma passagem rápida, virou estadia e trabalho.

Quantas lições nós podemos aprender com tudo isso narrado em João 4:1-42, não é mesmo? Quero compartilhar quatro que Deus falou profundamente ao meu coração nesses dias no Campo Missionário do Haiti:

Essa é uma narrativa missiológica e missionária!

É missiológica por nos levar à reflexão sobre a Missio Dei: qual é o foco de Deus no mundo? O que Ele tem fez e tem feito na História e com quais objetivos? É missionária porque nos permite avaliar e pautar nosso fazer à partir do fazer do missionário Jesus de Nazaré. É muito mais que um texto para os de fora ouvindo, entrarem. Ele nos impulsiona sair para que os que estão fora saibam e sejam impactados com a oportunidade de também entrar!

Fazer o que é necessário pela e na Missão, até pode proporcionar momentos de solidão, cansaço, exposição ao calor escaldante em terras hostis, e ainda, me levar aonde não sou bem vindo, mas, percebo que isso me assemelha ao Mestre, e me dá certeza que estou comendo a mesma comida d’Ele: “fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a Sua Obra”.

Um encontro ao meio-dia pode servir para transformar a história de uma pessoa, antes sedenta, seca e oprimida por seu passado e presente, e sem perspectivas futuras, porém agora, fonte de água viva à jorrar para vida eterna. Um encontro! Pouco tempo para Jesus é suficiente para mudar uma história!

Não podemos negligenciar as ações de curto prazo, pequenas para alguns, pouco producentes para outros. Aquele encontro no Poço de Jacó nos fala que, embora a Missão seja maior, a amplitude da Missão seja maior, as implicações da Missão gerem, por vezes, exigências maiores, ela (a Missão) não se faz só de grandes, complexas e delongadas ações, projetos e planos, mas também, de encontros únicos ao meio-dia à beira de uma fonte de água fora da cidade.

Que intrigante: foram só dois dias; era só uma aldeia. Mas, o Mestre ficou. Ele passou lá. Se importou. Aproveitou bem as oportunidades (Ef. 5.16). Não temos outro relato de Jesus se encontrando outra vez com a Mulher Samaritana, nem permanecendo, ou mesmo, só passando em Sicar. Foram só dois dias, mas que, diz o texto no verso 41: “Por causa da sua palavra, muitos outros creram”. Uma viagem de 2 dias vale a pena se for para mudar uma história pelo poder do Evangelho!

Isso me fez perceber que os missionários voluntários nas Caravanas de Impacto de Curto Prazo, a exemplo dos pouco mais de seiscentos, a maior parte (60%) vindos somente uma vez, que deixaram suas Jerusaléns, e entenderam que lhes era necessário passar no Haiti dez, doze, quinze dias compartilhando a Sua Palavra com gente considerada por muitos impuros, mas amadas por Deus, que vale a pena, sim, o plantar e o colher de cada um. Perceber que isso é, também, cumprimento da Missão, e os faz instrumentos nas mãos do Dono da Fazenda para a transformação de histórias de vidas, em pleno escaldar do sol, em terra hostil, por vezes em lugares que não foram bem vindos! Esses testificam que comem à mesa com o Mestre!

Esse Encontro ao meio-dia nos permite apreender sobre a profundidade e atualidade das palavras de Pedro em resposta ao questionamento de Jesus: “E vocês também querem ir embora?” – Para onde iremos nós, se só Tu tens as palavras de vida eterna!

Jonas, tipificando Israel, abriu mão dessa verdade, e por isso seu ministério missionário lhe foi um fardo pesado. Duas palavras ditas por Jesus, não à Mulher, mas aos discípulos naquele contexto, me despertam e enchem de temor: “Abram os olhos e vejam os campos! Eles estão maduros para a colheita”, e, “um semeia e outro colhe. Eu os enviei para colherem o que vocês não cultivaram”.

Verdadeiramente, para onde irei eu se só o Evangelho é o poder de Deus para a transformação de todo aquele que crer? Que outro sentido a vida pode ter se não fazer sentido na vida de outros indicando-lhes que só Tu tens as palavras de vida eterna? Um planta, outro colher, mas Ele é o Senhor da Seara!

É possível plantar ou colher ao meio-dia? Em apenas uma hora? Em apenas dois dias? Aquela mulher, aquela aldeia nos fazem lembrar, todos os dias, que sim!

Se essa é a comida do Mestre, é dela que eu quero continuar me alimentando. Se esse é o estilo de Missão que o Mestre também usa, também quero pra mim.

E você? Disposto a realizar um encontro ao meio-dia? Seja um missionário voluntário. Entre em Campo com Cristo, pelas Nações, e experimente plantar e colher enquanto você cumpre a Missão.

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